MENSAGEM ESCRITA PELO PRIOR DE SÃO PAULO/SP PARA O BOLETIM DO PRIORADO PADRE ANCHIETA – FSSPX SET/21)
Arquivos da Categoria: Textos e Reflexões
FINALIZANDO O MÊS, UMA SELETA DE NOSSOS POSTS DE AGOSTO

AS MISSÕES: REVISTA “FOREIGN MISSION TRUST”
ADELANTE LA FE: E LEFEBVRE TINHA RAZÃO
CATECISMO EM VÍDEO: O SACRAMENTO DA CONFIRMAÇÃO
QUANDO O PAPA CELEBRA A MISSA NOVA
COMISSÃO EUROPEIA DECIDE PROCESSAR A HUNGRIA
PARTICIPEM: “AÇÃO ENTRE AMIGOS” DE UM BELÍSSIMO ORATÓRIO – 2021
SANTO PADRE, BISPOS, PERCEBAM A ANGUSTIA DOS FIÉIS
IRMÃS CONSOLADORAS ADQUIREM UM BELO CONVENTO CONSTRUÍDO EM 1603
AUSTRÁLIA: IGREJA PODE SER EXPULSA DE CEMITÉRIOS
13 DE AGOSTO EM FÁTIMA: A APARIÇÃO QUE A MAÇONARIA QUERIA EVITAR
15 DE AGOSTO: RECORDAÇÃO DO MILAGRE DO PAPA PIO VII
A UNIDADE: UM FALSO ARGUMENTO PARA SEDUZIR OS FIÉIS
“ELES TÊM OS TEMPLOS, VÓS A FÉ APOSTÓLICA”
TOMADA DE BATINA NO SEMINÁRIO NOSSA SENHORA CORREDENTORA, EM LA REJA (ARG) 2021
UMA NOVA IGREJA PARA A FSSPX EM VIENA
UMA BELA EXPLICAÇÃO SOBRE AS ORAÇÕES AO PÉ DO ALTAR, NA MISSA TRIDENTINA
O MOTU PROPRIO QUE LEVA À LOUCURA
CONSELHOS DE SÃO CLAUDIO DE LA COLOMBIÈRE PARA QUE NOSSAS ORAÇÕES SEJAM PROVEITOSAS
MICROSOFT: UM PERVERSO PATROCÍNIO
O ESPÍRITO MISSIONÁRIO DE MONS. MARCEL LEFEBVRE, POR D. TISSIER DE MALLERAIS
SERMÃO DE D. TISSIER DE MALLERAIS
O sermão transcrito abaixo foi dado em Ecône, no dia 27 de junho de 2002. De grande força doutrinária, estas palavras tiram as consequências dolorosas mas reais de toda a destruição operada pelo Concílio Vaticano II, não somente nos atos e costumes da Igreja oficial, mas também nas mentalidades, nos corações de milhões de católicos espalhados pelo mundo e vivendo dentro dessas heresias e desses erros terríveis e acreditando que se deve obedecer a tais chefes.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, amém.
Senhor Superior Geral, Prezados senhores Bispos, senhor Diretor, caros confrades no sacerdócio, caros Ordinandos, queridos fieis,
Em alguns instantes o bispo, no decorrer desta cerimônia de ordenação de diáconos e de padres, pronunciará essas palavras, aos diáconos ele dirá: Vós sois, de agora em diante, os cooperadores do Sangue e do Corpo do Senhor, e aos padres, depois da própria ordenação, lhes dirá: recebei o poder de oferecer o sacrifício a Deus e de celebrar as missas tanto pelos vivos como pelos defuntos.
Essas palavras que nos parecem banais, de nossa simples Fé católica, que exprimem o próprio objeto do sacerdócio, que é a consagração do Corpo e do Sangue de Nosso, Senhor para renovar de modo não cruento sua Paixão Divina, essas palavras foram agora suprimidas do novo Pontifical de ordenação tanto dos diáconos como dos padres. Esse desaparecimento é muito significativo e quer dizer que a Nova Religião não quer mais exprimir a transmissão de um poder de consagrar o Corpo e o Sangue do Cristo e de um poder de renovar a Paixão do Calvário. E então, meus caríssimos ordinandos, estou certo, evidentemente, de que no curso de vossos seis anos de seminário haveis penetrado bem na doutrina católica a qual, agora, é ignorada pela maior parte dos padres da Nova Religião. Porque essa mudança do rito da ordenação significa uma Nova Religião. Nessa supressão de um poder de oferecer e de consagrar o Corpo e o Sangue do Cristo é precisamente onde se exprime a Nova Religião. Na qual se encontra a grande maioria dos católicos, a contra gosto, mas estão nessa Nova Religião, que consiste não apenas em um novo culto, mas em uma nova doutrina. Assim, se me permitem, caros fiéis, em algumas palavras descreverei primeiramente a nova doutrina dessa Nova Religião e em seguida seu novo culto.
Primeiramente os novos dogmas, uma nova doutrina conseqüência de novos dogmas.
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O CANTO GREGORIANO É, ANTES DE TUDO, ORAÇÃO
Existem muitas missas compostas por vários músicos que são boa música, e que podemos chamar de música religiosa, pois possuem caráter religioso. O gregoriano, porém, não é uma “música religiosa” entre outras, mas, segundo a feliz fórmula de Dom Gajard1, é uma “oração cantada”. Aí está toda a diferença.
A alma que canta essa oração, ou que escuta esse canto num espírito de fé, é o contrário de um esteta. Quem concorda em abrir a sua alma para o mistério do cantochão, atinge o objetivo para o qual foi concebido, pois o gregoriano tem a vocação de nos abrir e nos conduzir ao reino do qual Nosso Senhor nos fala no Evangelho, que é o reino da graça.
O canto gregoriano ensina a rezar
Antes de tudo, esse canto é essencialmente oração. É verdadeiramente um canto “consagrado” 2, porque deve servir unicamente ao culto. O seu fim primeiro, com efeito, é o “sacrifício de louvor” da Igreja. Por ser feito e por voltar-se para Deus, coloca-nos de saída diante do nosso Criador numa atitude de oração. Esse canto faz com que nos voltemos para as realidades sobrenaturais e divinas. Ensina ao homem o senso do sagrado e da grandeza de Deus. Ele lhe ensina a rezar, a contemplar a Deus, a louvá-lo. Ele nos faz encontrar a Deus para podermos lhe falar de coração a coração. Suas melodias nos introduzem imediatamente numa atmosfera sobrenatural.
A maior parte das peças gregorianas são curtas, mas são capazes de impor desde logo uma atitude de fé, de admiração, de confiança, de adesão a Deus e a sua vontade – elas nos fazem atingir Deus diretamente. Elas conduzem à contemplação dos mistérios mesmos que revivem. Com efeito, a virtude essencial do nosso canto é a de ser capaz de conduzir e manter o nosso olhar (tanto quanto possível aqui embaixo) em algo de perfeitamente puro, em Deus, que habita uma luz inacessível. Esse canto é transparente ao espiritual, reflete um outro mundo, diz o que nenhuma outra música diz: fala à alma do invisível, dos mistérios divinos. Introduz-nos no mistério, no sagrado, abre-nos as mais altas realidades espirituais. É uma arte impregnada do sobrenatural.
O canto gregoriano ajuda e favoriza assim o recolhimento, a contemplação e inspira o bom gosto3. Dirige-se ao que há de mais profundo dentro da alma. É por isso que atrai as almas amantes da beleza e do sagrado. Traz consigo uma graça própria que é a de nos introduzir de modo único no coração do mistério, na contemplação. Continuar lendo
SABEMOS QUE DEVEMOS AMAR AO PRÓXIMO COMO A NÓS MESMOS, MAS COMO DEVEMOS AMAR A NÓS MESMOS?

É necessário ter ideias claras acerca do verdadeiro amor de caridade por si mesmo, porque há muitas maneira de amar a si mesmo que não têm nada a ver com a caridade sobrenatural que deve regular nossas relações com o próximo.
Primeiramente, há o amor sensual, desordenado e imoral, que o pecador professa a seu corpo, dando-lhe todo tipo de prazeres ilícitos.
Também há o amor puramente natural, que consiste em preservar a própria existência e buscar o próprio bem. Não é uma virtude sobrenatural, pois é apenas algo puramente instintivo e natural, mas não é uma desordem em si. Esse amor-próprio é comum a todos os homens, bons e maus.
Há uma espécie superior de amor, o amor sobrenatural de desejo, pelo qual a felicidade eterna da glória do céu é desejada. Ele é bom e honesto, porém imperfeito e, na verdade, pertence à virtude da esperança, não da caridade.
Finalmente, há o amor sobrenatural de caridade, pelo qual amamos uns aos outros em Deus, através de Deus e por Deus. Essa é uma forma perfeitíssima de amor, da mais alta dignidade, pois, tendo Deus como seu motivo formal – embora recaia materialmente sobre outros homens – pertence, propriamente, à virtude teológica da caridade e recebe dela sua excelência.
De acordo com essas distinções, então, o amor sobrenatural de caridade por si é o ato sobrenatural pelo qual amamos a nós mesmos em Deus, através de Deus e por Deus. O amor de caridade por si próprio estende-se à nossa própria pessoa e a tudo que pertence a nós, tanto na ordem natural, quanto na sobrenatural, pois tudo deve estar relacionado com Deus. Continuar lendo
A GUERRA FÚTIL DA “OUTRA” CONTRA O CATOLICISMO

Como vários católicos atentos observaram, o Motu Proprio Traditionis Custodes, de Francisco, encerrou abruptamente a confusa campanha da “hermenêutica da continuidade”, que tinha por objetivo convencer o mundo de que, apesar de tudo o que transparecia, as reformas do Vaticano II estavam em continuidade com a religião Católica de sempre. Como deixa claro a carta que acompanha Traditionis Custodes, é necessário escolher entre as crenças e práticas que os católicos mantiveram por quase dois mil anos e aquelas que decorreram do Vaticano II. Ora, se fossem as mesmas, por que seria necessário escolher entre elas?
Ao passo que a tentativa de eliminar a ruptura entre o Catolicismo e a religião animada pelo Vaticano II (a Outra[1]) tenha sido sempre irremediavelmente frustrante e fútil, avaliar as diferenças entre as duas religiões é, em comparação, simples e iluminador. Para esse fim, vale considerar: o papel da Outra na guerra movida por Satanás; como e por que as duas religiões são diferentes; o propósito da nova religião; por que o Catolicismo é a única religião rejeitada pela Outra; e, finalmente, quão incoerente é a Outra.
O papel da Outra na guerra movida por Satanás
Poderíamos nos ver tentados a considerar a situação atual da Igreja como uma refutação de sua indefectibilidade. De fato, muitos abandonam a Fé porque acreditam erroneamente que a Igreja foi derrotada. Todavia, Deus tem nos dado razões abundantes para nos mantermos firmes na Fé, mesmo se parece que os inimigos triunfaram: temos a promessa de Nosso Senhor de que as portas do inferno não prevalecerão (Mt 16, 18), e dois mil anos de história onde vemos a Igreja resistir a assaltos aparentemente insuportáveis.
Além disso, há importantes aparições da Santíssima Virgem Maria trazendo avisos proféticos sobre a infiltração na Igreja. No início do século XVII, María del Buen Suceso de La Purificación (comumente conhecida como Nossa Senhora do Bonsucesso) apareceu à Venerável Madre Mariana de Jesus Torres, uma freira de clausura do Convento Real da Imaculada Conceição em Quito, Equador. Sua mensagem a respeito de eventos que ocorreriam no século XX é de particular interesse para os católicos de hoje: Continuar lendo
CONSELHOS DE SÃO CLAUDIO DE LA COLOMBIÈRE PARA QUE NOSSAS ORAÇÕES SEJAM PROVEITOSAS

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est
Perseverança na oração
Queres que todas as suas orações sejam infalivelmente eficazes? Quereis forçar a Deus a satisfazer todos os seus desejos? Em primeiro lugar, digo que não deves cansar-te de rezar. Aqueles que se cansam depois de ter rezado um pouco, carecem de humildade ou de confiança, e, deste modo, não merecem ser ouvidos.
Dá a impressão que desejas que tua oração seja obedecida instantaneamente, como se fosse uma ordem. Não sabes que Deus resiste aos orgulhosos e se compraz nos humildes? O que, acaso teu orgulho não permite que sofras ao ser obrigado a voltar mais de uma vez para a mesma coisa? É ter muita pouca confiança na bondade de Deus esse desesperar tão cedo, fazer das menores procrastinações, rechaços absolutos.
Quando entendes verdadeiramente o quão longe vai a bondade de Deus, jamais acreditas ser um rejeitado, jamais acreditas que Deus deseja retirar-nos toda a esperança. Penso, confesso, que quando vejo que quanto mais Deus me faz insistir em pedir uma mesma graça, mais sinto crescer em mim a esperança de obtê-la. Nunca acredito que minha oração tenha sido rejeitada, até que me dou conta que deixei de rezar. Quando, após um ano de pedidos, me encontro com tanto fervor quanto tive no início, não duvido da realização de meus desejos, e longe de perder valor depois de tão longa espera, acredito ter motivos para me alegrar, porque estou convencido de que ficarei tanto mais satisfeito quanto mais tempo fiquei rogando. Se minhas primeiras instâncias tivessem sido totalmente inúteis, jamais teria reiterado os mesmos votos, minha esperança não teria sido sustentada, visto que minha assiduidade não cessou, é uma razão para eu acreditar que serei pago liberalmente. Continuar lendo
UMA NOVA IGREJA PARA A FSSPX EM VIENA
Carta do Superior do Distrito da Áustria, Pe. Stefan Frey, dando a notícia aos fiéis da Áustria.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
Caros amigos e benfeitores!
O céu nos ofertou, em Viena, um presente que superou nossas expectativas. Há anos procuramos uma igreja adequada, porque a situação provisória – que acabou por ser duradoura – da nossa antiga Capela de São José de Bernardgasse, com o seu aluguel caríssimo, nunca foi uma solução definitiva.
Desde 2008, nossos fiéis vienenses oram intensamente por essa intenção. São José fez-nos esperar e pôs à prova a nossa paciência e perseverança até ao ano a ele dedicado.
Mas hoje, ele respondeu de maneira superabundante às muitas orações e nos deu não qualquer igreja, mas a Igreja dos Mínimos de Maria Schnee – Maria das Neves – consagrada à sua santíssima esposa.
É uma das igrejas mais famosas, belas e antigas da cidade de Viena, em uma localização privilegiada, e cuja importância histórica e cultural não pode ser suficientemente apreciada! Nossa gratidão ao bom São José não tem limites! Como ele ouve maravilhosamente aqueles que rezam a ele com confiança e perseverança.
Mas também estamos cientes que este dom sublime está ligado a uma grande missão e a uma pesada responsabilidade. A Igreja dos Mínimos oferece agora grandes possibilidades para o apostolado e, portanto, oportunidades únicas para fortalecer a tradição católica em Viena. Continuar lendo
A UNIDADE: UM FALSO ARGUMENTO PARA SEDUZIR OS FIÉIS
Quando os “bons apóstolos(*)” pregam a nós, católicos tradicionais, aceitar as novidades pós-conciliares em nome da unidade cristã, dificilmente fico comovido.
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
A unidade da Missa não foi destruída por nós, mas por aqueles que inventaram uma nova Missa. A unidade da fé não foi arruinada por nós, mas por aqueles que desprezam dos dogmas. A unidade na caridade não depende de nós, mas daqueles que ainda mantêm uma espécie de excomunhão de fato contra D. Lefebvre e aqueles que, como ele, permanecem fiéis à religião católica.
Com que unidade sonham esses “bons apóstolos”? Suponham, por um instante, Deus nos livre, que eles pudessem aniquilar tudo o que fosse tradicional e ainda sufocar a imensa multidão de cristãos resistentes, atordoados pela nova religião: os senhores acreditariam que esse massacre faria nascer a unidade?
Esses “bons apóstolos” não alcançariam a unidade da Missa. Pois removendo a de São Pio V, restariam ainda uma centena delas e todos os domingos trariam uma nova para os telespectadores. Esses “bons apóstolos” não alcançariam a unidade com os protestantes; eles se tornariam uma seita entre trezentas outras seitas. Estes “bons apóstolos” não seriam sequer capazes de chegar a um pensamento comum, porque seus cérebros evolutivos não sabem mais como distinguir a verdade do erro. Para eles, a única heresia é tomar a Revelação divina como verdadeira. Continuar lendo
A VOCAÇÃO DE TODOS
Todos os seres humanos recebem a mesma vocação, de alcançar sua salvação.
Fonte: Le Parvis n° 110 – Tradução: Dominus Est
A chamada à vida religiosa ou sacerdotal merece ser chamada, em sentido estrito, de “vocação”, como consagração a Deus. Contudo, o destino de cada homem está bem predeterminado por nosso Criador em seu fim último, o Céu e, neste sentido “ampliado”, podemos afirmar que todos os seres humanos recebem a mesma vocação de alcançar sua salvação. Em todos os casos de vocação, seja de modo particular na consagração a Deus ou universal na busca da salvação, o Bom Deus parece usar o mesmo “método” para nos guiar em direção ao nosso objetivo. Verificamos isso estudando a vocação “sublime” dos próprios apóstolos e aplicando a cada fiel o que lhe é próprio, ainda que, por sua vez, o cristão que vive no mundo só esteja comprometido com a chamada vocação dita “comum”.
O insigne favor de Deus e irresistível atração do discípulo
O Evangelho relata a origem da vocação dos apóstolos dessa maneira bem impressionante: “Jesus retirou-se ao monte a orar e passou toda a noite em oração a Deus. Quando se fez dia, chamou seus discípulos e escolheu doze deles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (S. Lucas 6,12). Notamos que a iniciativa vem inteiramente do próprio Jesus, uma vez que Ele se dará ao trabalho de nos lembrar ocasionalmente: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (S. João 15, 16). Podemos especificar que a chamada dos apóstolos também poderia ter sido feita individualmente, por exemplo, como no caso de São Mateus “Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu sentado no telónio, e disse-lhe: segue-me. Ele, levantando-se, o seguiu” (S. Marcos 2,14).
Assim, Jesus se dirige aos seus escolhidos sob a forma de um mandamento, sem procurar explicar sua decisão ou dispor deles a uma resposta positiva e os apóstolos unanimemente dão sua concordância imediata e incontestável, como acabamos de ver em São Mateus e como é também é relatado para vários deles: “Passando adiante, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca juntamente com seu pai Zebedeu, consertando as suas redes, e chamou-os. E eles imediatamente, deixando a barca e o pai, o seguiram” (S. Mateus 4, 21-22). Continuar lendo
UM ATO BOM

Se nós tivéssemos de discutir com o Senhor a salvação de nossa cidade, como se vê no capítulo dezoito do Gênese que Abraão o fez para a defesa de Sodoma, deveríamos deter o regateio da misericórdia na condicional existência de uns quinhentos justos. Se Sodoma precisava de dez, nossa gloriosa e populosa cidade precisará cinquenta vezes mais. Digamos quinhentos.
Tomando o termo no sentido sobrenatural, como convém às passagens da Sagrada Escritura, e procurando-os entre os pobres, os oprimidos, as criadas de servir, os religiosos, os simples, facilmente apresentaríamos a Deus, creio eu, os quinhentos ou mais justos que obscuramente, na invisível comunhão, afastam de nós o fogo dos céus. Mas se transpusermos o problema da ordem sagrada para a profana, e se quisermos achar quinhentos homens de bem entre os que visível e oficialmente respondem pelas vigas das instituições e pelo arcabouço temporal da República, então veremos, com profunda apreensão, que nem a décima parte conseguiríamos reunir. Homens bons, graças a Deus, conheço muitos; mas homens públicos honestos, creio que não conheço cinquenta. Conhecerei quarenta? Trinta? Vinte? Ah! Se tivesse a certeza de poder contar dez!
Antes de continuar devo definir o que entendo por honesto e o que entendo por homem público honesto. O termo honesto, no tempo de Cícero, tinha uma austera significação que se estendia por toda a ordem moral. “Ita fit, ut, quod bonum sit, id etiam honestum sit”. Das letras clássicas o termo ingressou no vocabulário da filosofia escolástica para significar aquilo que é moralmente bom e que se distingue do bom deleitoso e do útil. Com o advento da moral burguesa, que sabidamente é uma regra de exterioridades, o termo entrou na linguagem comum com uma significação diferente. Ou melhor, com duas significações. Para homens: honesto é o que não tira o dinheiro do bolso do outro diretamente com a mão; e o que não se descuida de pagar suas contas em dia certo. Para Senhoras: honesta é a excelentíssima senhora que não dorme com homem que não seja o seu marido. Note, porém, o leitor, que o homem, nessa nova acepção do termo, pode dormir com uma senhora, que não seja exatamente aquela a que o ligaram os doces laços do himeneu, sem deixar de ser honesto. E a senhora pode enganar a cozinheira na conta dos dias, sem se tornar desonesta. Continuar lendo
AS MARAVILHAS DO EVANGELHO

Paul (Takashi) Nagai
O Evangelho de Jesus Cristo produz o mesmo efeito onde quer que seja pregado: configura almas ao Cristo primogênito. Certamente, o cristianismo que nasce dessa pregação conhece diferentes cores e variedades de acordo com os povos que a recebem. Mas seu espírito é imediatamente reconhecível quando é autêntico, em todos os lugares e em todos os tempos.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
O texto a seguir foi escrito por um médico japonês, Paul Nagai, um convertido do xintoísmo e batizado em 9 de junho de 1934, aos 26 anos. Vivendo em Nagasaki, ele testemunharia o fogo nuclear derreter a cidade em 9 de agosto de 1945, atingindo o Japão pela segunda vez – depois de Hiroshima, que tinha sido irradiada no dia 6 de agosto precedente.
Sua esposa, situada perto do epicentro da explosão, seria reduzida a alguns fragmentos de ossos cercados por seu rosário. Ele próprio, então em um hospital relativamente longe da explosão, seria severamente irradiado. Ele morreria em 1º de maio de 1951, de leucemia.
Em 23 de novembro de 1945, um funeral foi realizado para as vítimas no local da catedral semidestruída. Vários testemunhos de membros do clero foram lidos, mas Paul Nagai foi convidado para representar os leigos. O texto que preparou nesta ocasião é o seguinte, um texto impregnado de fé e do mais belo espírito cristão.
“Em 9 de agosto de 1945, às dez e meia da manhã, o Conselho Supremo de Guerra se reuniu no Quartel-General Imperial para decidir se se renderia ou não.
Foi, precisamente, no momento desta decisão pela paz ou pelo prosseguimento da guerra que explodiu a bomba atómica, às 11h02, em nosso bairro de Urakami. [O distrito católico de Nagasaki]
Em um instante, 8.000 almas católicas foram enviadas ao tribunal de seu Criador, e um incêndio devastador reduziu esta cidade cristã a cinzas em questão de horas. Nesse mesmo dia, à meia-noite, a catedral incendiou-se e foi destruída. Continuar lendo
ADELANTE LA FE: E LEFEBVRE TINHA RAZÃO
Fonte: Adelante la Fe – Tradução: Dominus Est
Visto todo o ocorrido, há de se afirmar de forma inequívoca: Mons. Lefebvre tinha razão quando fez o que fez. Após a promulgação do Motu Proprio que ataca a Missa tradicional, e o efeito imediato em todos os níveis da estrutura interna da Igreja, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (fundada por Lefebvre) vem a ser como que um baluarte seguro onde a liturgia católica está protegida.
Lefebvre foi rotulado de fanático, integrista, cismático, fundamentalista … etc. Por décadas, apenas pronunciar seu nome (sem sobrenome ofensivo) significava ser considerado quase excomungado pela própria Igreja. Lembro-me muito bem de uma conversa que tive, em 1991, com um jesuíta, sobre um amigo que parecia querer entrar no seminário de Econe (da FSSPX) e do tremendo choque que ele teve ao saber que foi fundado por Lefebvre, cujo movimento foi qualificado por este jesuíta (e cito textualmente) como “a maior brutalidade“. A verdade é que aquela cena me deixou impressionado e me lembro dela como uma cena horrível de um filme de terror. Uma cena importante da lenda negra lançada sobre um Bispo que durante sua vida só procurou restaurar todas as coisas em Cristo, e que durante o seu ministério na África alcançou um dos maiores crescimentos missionários realizados na história.
Pois bem: lembremo-nos agora da [cena] verdadeira. Em primeiro lugar, Lefebvre nunca foi cismático, pois nunca quis formar uma hierarquia paralela à hierarquia oficial da Igreja. Em todos os seus seminários e priorados a fotografia emoldurada do Papa (João Paulo II e posteriores) era colocada, e claramente visível, porque ele nunca afirmou que a Sé Romana estava vacante. De fato, o movimento sedevacantista nunca teve qualquer aliança ou aceitação de Monsenhor, e até hoje ele ainda é alvo de tantas desqualificações quanto de seus inimigos modernistas. Continuar lendo
AS MISSÕES: REVISTA “FOREIGN MISSION TRUST”

A Revista Foreign Mission Trust é a mais nova publicação do Distrito dos EUA para compartilhar todas essas iniciativas. É uma plataforma para todas as missões da FSSPX apresentarem o trabalho que realizam em suas regiões de atuação no mundo.
Fonte: SSPX USA – Tradução: Dominus Est
O Distrito dos Estados Unidos tem o orgulho de mostrar a beleza e a diversidade dos esforços missionários da Fraternidade São Pio X e está ávido para ajudar as Missões a desenvolver ainda mais suas iniciativas. Todas as contribuições desta revista são de nossos missionários: reportagens em primeira mão escritos pelos padres missionários. Suas belas fotos ilustram a vibração das Missões.
A Revista Foreign Mission Trust será publicada pelo menos 3 vezes por ano e será a “janela aberta” para a FSSPX nas Missões
Esperamos que esta iniciativa os ajude profundamente a compreender a extensão de nosso trabalho e a apoiar generosamente este esforço com suas orações e doações.
Edição mais recente: Continuar lendo
MOTU PROPRIO TRADITIONIS CUSTODES, PELO PE. JEAN-FRANÇOIS MOUROUX, FSSPX, PRIOR DO PRIORADO DE SÃO PAULO

Sermão do X Domingo depois de Pentecostes proferido na Capela São Pio X, do Priorado Padre Anchieta, com publicação autorizada para o blog Dominus Est
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Caros fiéis,
Em 16 de julho, foi lançado um novo grande ataque contra a Tradição Católica: o Motu Proprio Traditionis Custodes do Papa Francisco, que reduz ao máximo a celebração da Missa Tridentina. Para a Fraternidade São Pio X (FSSPX), estas disposições não mudarão nada, exceto para lhes trazer mais fiéis. Mas é importante saber por que isto não mudará nada para nós. Também devemos entender a diferença entre a FSSPX e as chamadas comunidades “Ecclesia Dei” para as quais tudo vai mudar.
Voltemos à origem desta ruptura na luta pela defesa da Tradição católica. Em 1988, Dom Marcel Lefebvre consagrou quatro bispos sem a autorização de Roma. Para ele, era uma questão de sobrevivência. Após vários anos de negociações com Roma para tentar explicar os problemas colocados pela nova doutrina do Vaticano II, a nova liturgia, os novos sacramentos, a nova lei canônica, após os repetidos escândalos, incluindo a famosa reunião ecumênica em Assis, Dom Lefebvre estava convencido de que a hierarquia da Igreja não queria “apoiar ou continuar a Tradição“. E hoje o Papa Francisco lhe dá razão, pois deixa claro que as concessões feitas à liturgia tradicional foram feitas com o objetivo de trazer aos poucos os sacerdotes e os fiéis à nova liturgia. Então, consequentemente, Dom Lefebvre decidiu salvar a Tradição, consagrando bispos.
Infelizmente, alguns sacerdotes da Fraternidade São Pio X, naquela época não quiseram seguir Dom Lefebvre no que foi chamado de seu “cisma“. Para eles, Roma criou uma estrutura chamada Comissão Ecclesia Dei, cujo nome vem do texto que a estabeleceu. Esta estrutura reuniu gradualmente todos os Institutos que desejavam preservar a Missa tradicional sendo eles reconhecidos por Roma. Estes incluíam a Fraternidade São Pedro e o Instituto do Bom Pastor. “Não podemos desobedecer ao Papa“, disseram eles. “Temos que ficar dentro da Igreja para promover a Tradição.”
Mas para Dom Lefebvre, não se tratava de sair da Igreja, mas justamente de permanecer nela. Não foi ele quem mudou, mas as autoridades da Igreja que mudaram.
Em uma conferência em 21 de dezembro de 1984, ele disse: “Não podemos nos colocar sob uma autoridade cujas ideias são liberais e que nos condenaria pouco a pouco, pela força das circunstâncias, a aceitar suas ideias e suas consequências, antes de mais nada, a Nova Missa.”
Em uma conferência em dezembro de 1989 (um ano depois das sagrações episcopais), Dom Lefebvre voltou a falar da situação daqueles que preferiam se submeter a Roma: “Eles se encontrarão rapidamente em uma contradição, pois se aceitarem o Concilio, terão que aceitar suas consequências. E as consequências incluem a reforma litúrgica.”
Então, a atitude do arcebispo Lefebvre pode ser explicada por dois princípios: Continuar lendo
FINALIZANDO O MÊS, UMA SELETA DE NOSSOS POSTS DE JULHO

NÃO COLOQUE SUAS ORAÇÕES DE FÉRIAS
BELGICA: UMA ABADIA DEFENDE SUA “AUTÊNTICA CERVEJA TRAPISTA”
DISSOLUÇÃO SOCIAL, DISSOLUÇÃO RELIGIOSA
DESENVOLVIMENTO DO APOSTOLADO DA FSSPX NO QUÊNIA
HUNGRIA PROTEGE MENORES DE CONTEÚDOS PERVERSOS
SOBRE O MOTU PROPRIO DO PAPA FRANCISCO SOBRE A MISSA TRIDENTINA
O BRAÇO DE FERRO ENTRE A UNIÃO EUROPÉIA E A HUNGRIA
ATENÇÃO: NOSSO CANAL DO YOUTUBE PERDIDO
DO SUMMORUM PONTIFICUM A TRADITIONIS CUSTODES, OU DA RESERVA AO ZOOLÓGICO
A MISSA DE SÃO PIO V, A MISSA DE PAULO VI E OS CONSERVADORES
TÉRMINO DA REFORMA DA IGREJA ST. VICENT, NOS EUA
NO CORAÇÃO DE UM SEMINÁRIO CATÓLICO

Faz já um tempo – bastante grande, na verdade – que o Diretor desta Revista (Permanencia) pediu-me um artigo sobre o Seminário onde desempenho o cargo de reitor, deixando-me a maior liberdade na escolha da abordagem do referido artigo.
Durante certo tempo busquei qual seria o ponto de vista mais interessante para os leitores da Permanência e terminei concluindo que, talvez, a maneira mais original e viva para conhecer um seminário por dentro fosse através dos olhos, das ilusões, das aspirações e dos sentimentos dos próprios seminaristas. Pedi então a três diáconos que escrevessem o que os senhores lerão na continuação.
Quando eu mesmo li estas reflexões dos referidos diáconos concluí que não me havia enganado ao deixar-lhes a redação do artigo: este permite não somente entrar no coração de um seminário católico, como diz o título, mas também no coração mesmo de um rapaz que quer doar-se totalmente a Nosso Senhor e que se deixa amoldar, pouco a pouco, pela graça de Deus, passando, no entanto, por algumas provas. Continuar lendo
CARTA DO SUPERIOR GERAL DA FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X APÓS A PUBLICAÇÃO DO MOTU PROPRIO “TRADITIONIS CUSTODES”

“ESSA MISSA, NOSSA MISSA, DEVE SER REALMENTE PARA NÓS COMO A PÉROLA DO EVANGELHO PELA QUAL TUDO RENUNCIAMOS, PELA QUAL ESTAMOS PRONTOS A VENDER TUDO.”
Fonte: FSSPX
Caros membros e amigos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X,
O motu proprio Traditionis custodes e a carta que o acompanha causaram uma agitação profunda no ambiente dito ‘tradicionalista’. Pode-se notar, com boa lógica, que a era da hermenêutica da continuidade — com seus equívocos, ilusões e esforços impossíveis — acabou tragicamente, sendo posta de lado. Essas medidas, tão claras e nítidas, não tocam diretamente a Fraternidade São Pio X, mas devem ser para nós ocasião de uma reflexão profunda. Para fazer isso, é necessário elevar-nos aos princípios e colocarmo-nos uma questão simultaneamente antiga e nova: por que a Missa tridentina é o pomo da discórdia depois de cinquenta anos?
Antes de tudo, devemos nos lembrar que a santa Missa é a continuação, nos tempos, da luta mais renhida que há: a batalha entre o Reino de Deus e o reino de Satanás, essa guerra que chegou ao ápice no Calvário, com o triunfo de Nosso Senhor. Foi para essa luta, e essa vitória, que Ele se encarnou. Visto que a vitória de Nosso Senhor foi obtida pela cruz e por seu sangue, é compreensível que sua perpetuação aconteça, também, por meio de lutas e contrariedades. Todo cristão é chamado a esse combate: Nosso Senhor nos chama porque disse que “veio à terra para trazer a espada” (Mt 10, 34). Não é surpreendente que a Missa de sempre, que exprime perfeitamente a vitória definitiva de Nosso Senhor sobre o pecado, por seu sacrifício expiatório, seja ela mesma um sinal de contradição.
Contudo, por que essa Missa se tornou sinal de contradição dentro da própria Igreja? A resposta é simples, e cada vez mais clara. Depois de cinquenta anos, os elementos da resposta são evidentes para todos os católicos de boa vontade: a Missa tridentina expressa e veicula uma concepção da vida cristã — e, consequentemente, uma concepção de Igreja — que é absolutamente incompatível com a eclesiologia que procede do Concílio Vaticano II. O problema não é simplesmente litúrgico, estético, ou meramente formal. O problema é simultaneamente doutrinal, moral, espiritual, eclesiológico e litúrgico. Em poucas palavras, é um problema que toca todos os aspectos da vida da Igreja, sem exceção: é uma questão de fé.
De um lado encontra-se a Missa de sempre, estandarte de uma Igreja que enfrenta o mundo e que está certa de sua vitória, porque sua batalha não é outra que a continuação daquela que Nosso Senhor realizou para destruir o pecado e o reinado de Satanás. É pela Missa, e através da Missa, que Nosso Senhor alista as almas cristãs no seu próprio combate, fazendo que participem tanto de sua cruz como de sua vitória. De tudo isso decorre uma ideia fundamentalmente militante da vida cristã. Duas notas a caracterizam: o espírito de sacrifício e uma esperança inabalável. Continuar lendo
SOFRER AO INVÉS DE AGIR?
Diante dos erros modernos que ele desaprova, o Padre “X” optou por permanecer em silêncio, oferecendo os sofrimentos que isso lhe causa. Isso é realmente admirável?
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
Ouvimos, por vezes, ecos de um ou de outro sacerdote de boa-fé que, demasiado conservador aos olhos de sua hierarquia, é obrigado a reduzir o ardor apostólico e a obedecer às injunções progressistas. Ele então se encontra acorrentado à toda-poderosa Equipe de Animação Pastoral e, com relutância, tem que lidar com a ecologia e o ecumenismo mais do que com a salvação das almas. Ele deve então ensinar as almas a viverem bem aqui na Terra de acordo com as máximas do mundo, ao invés de pregar as virtudes celestiais do desprezo por esta terra de exílio. Muitos padres conservadores dizem que sofrem com isso. Queremos acreditar neles! Substituem o ministério sacerdotal pelo ministério do sofrimento: o sofrimento por não poder cumprir o seu ministério. Mas é suficiente sofrer?
Encontramos no Papa Paulo VI uma atitude semelhante. Em 21 de junho de 1972, durante uma audiência geral, ele revelou parte de suas notas pessoais:
Talvez o Senhor me tenha chamado e me mantenha neste serviço[o papado] não tanto por qualquer aptidão que eu possua ou para que eu governe e salve a Igreja das suas dificuldades atuais [grifo nosso], mas para que eu sofra algo pela Igreja e fique claro que Ele, e mais ninguém, a guia e salva
Romano Amerio, autor do famoso livro Iota Unum (compre aqui ou aqui) sobre a crise na Igreja, qualifica esta admissão como “exorbitante“: Deus o teria chamado ao ofício papal, mas não para que governe. Amério mostra que Paulo VI não se contentou com essas estranhas palavras, mas que muitas vezes renunciou sua autoridade diante dos muitos desvios graves que marcaram seu pontificado. Para sua função pública de pastor supremo, o Papa substituiu assim uma virtude pessoal: sofrer em vez de comandar. Como se um pai abandonasse seu papel para sofrer exclusivamente as dificuldades de sua família. Dificuldades que não deixarão de surgir precisamente porque o pai abandona sua função. Paulo VI procurou assim “salvar a Igreja” não por sua ação, mas por seu sofrimento…devido, em parte, à sua inação. Continuar lendo
A MISSA DE SÃO PIO V, A MISSA DE PAULO VI E OS CONSERVADORES

POR UMA VERDADEIRA COMPAIXÃO
A situação dos ritos de São Pio V e Paulo VI é descrita no recente Motu proprio Traditionis Custodes: uma coabitação impossível no nível dos princípios litúrgicos.
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
1 – Com o recente Motu proprio Traditionis custodes de 16 de julho, o Papa Francisco estabelece que “os livros litúrgicos promulgados pelos “Santos” Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano”
2 – As diversas reações não tardaram a surgir do movimento Ecclesia Dei. Sem dúvida, a situação de todos aqueles que, por estarem ligados à liturgia tradicional, não quiseram seguir Mons. Lefebvre e a Fraternidade São Pio X em um suposto “cisma” ou pelo menos em uma igualmente suposta “desobediência”, corre o risco de se tornar muito problemática. Isto é muito angustiante aos olhos de todos aqueles cuja consideração se limita ao bem pessoal dos membros do referido movimento – ou, ao menos, sob o aspecto das consequências práticas imediatas. O exemplo do Superior do Distrito da França da Fraternidade São Pedro é característico a esse respeito, quando ele vê no Motu proprio do Papa Francisco um texto “ofensivo”, que retribui mal os esforços de “obediência” desenvolvidos até agora, chegando ao ponto de dizer que “a Fraternidade São Pio X é finalmente tratada melhor do que nós“.
3 – Mostrando ser angustiante em seus efeitos e prejudicial para as pessoas, a iniciativa do Papa não é, entretanto, surpreendente. É até mesmo lógica. E podemos nos perguntar se tal situação não seria inevitável. Pois a situação dos dois ritos, o de São Pio V e o de Paulo VI, é justamente a descrita no recente Motu proprio Traditionis custodes: situação de uma coabitação impossível no nível dos princípios litúrgicos. Além das situações de fato e do estado infinitamente variável – pacífico ou conflituoso – dos indivíduos, há, fundamentalmente, uma oposição formal de doutrina entre a Missa de São Pio V e o novo rito de Paulo VI. Pois a liturgia é um lugar teológico[1]. Continuar lendo
DO SUMMORUM PONTIFICUM A TRADITIONIS CUSTODES, OU DA RESERVA AO ZOOLÓGICO

O Papa Francisco publicou nesta sexta (16/07) um Motu Proprio cujo título poderia apresentar uma grande esperança: Traditionis custodes, “Guardiões da Tradição”. Sabendo que se dirige aos Bispos, poderia-se levar a sonhar: a Tradição está em vias de recuperar os seus direitos na Igreja?
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
Pelo contrário. Este novo Motu Proprio executa uma eliminação. Ele ilustra a precariedade do atual magistério e indica a data de expiração do Summorum Pontificum de Bento XVI, que nem sequer terá celebrado seu décimo quinto aniversário.
Tudo, ou quase tudo, contido no Summorum pontificum foi disperso, abandonado ou destruído. O objetivo também está claramente estabelecido na Carta que acompanha esta liquidação.
O Papa enumera dois princípios “sobre o modo de proceder nas dioceses”: “por um lado, prover o bem daqueles que estão enraizados na forma precedente de celebração e que precisam de tempo para retornar ao rito romano promulgado pelos “santos” Paulo VI e João Paulo II ”.
E, por outro lado: “impedir de erigir novas paróquias pessoais, ligadas mais ao desejo e à vontade de cada sacerdote do que às necessidades do “povo santo e fiel de Deus”.
Uma extinção programada
Enquanto Francisco se faz defensor das espécies animais ou vegetais em vias de desaparecimento, ele decide e promulga a extinção daqueles que estão ligados ao rito imemorial da Santa Missa. Esta espécie não tem mais o direito de viver: ela deve desaparecer. E todos os meios serão empregados para alcançar este resultado. Continuar lendo
A RESTAURAÇÃO DA TRADIÇÃO MUSICAL

Os momentos mais marcantes da nossa viagem de junho para Winona, à parte as ordenações, foram as reuniões noturnas ao redor das fogueiras no acampamento. As famílias se reuniram para cantar e tocar canções. Os jovens gostam das antigas baladas, que se tornaram clássicos, pois perduraram por gerações, tendo incorporado sentimentos pátrios, familiares e religiosos. Estas canções são parte de nossa cultura: músicas irlandesas e escocesas, cantos da Guerra Civil, canções caipiras, etc. Um dos livros musicais utilizados nos saraus traz o seguinte prefácio:
“’Só o amante canta’. Quão profundas são estas palavras de Santo Agostinho! Porque a canção é o casamento entre a poesia e a música e, como em qualquer casamento, tem por motivo o amor. Quer se cante a Deus, ao amado, ou até à pátria, canta-se por amor. O canto às vezes manifesta alegria, às vezes tristeza, mas sempre é uma manifestação de amor. Quem canta vai além do comum, pois deseja expressar algo que não se poderia expressar de outro modo. Assim como o pintor não só desenha alguma coisa, mas a pinta, o cantor não só diz algo, mas o canta.”
“Só o amante canta. Eis a razão por que o canto é tão natural para o católico. A vida católica é uma vida de amor, porque é uma vida de sacrifício. Daí todas as culturas da Europa Católica possuírem (além do sublime canto litúrgico) sua própria música folclórica, com belas canções e danças. Hoje, porém, não mais se canta. À medida que a cultura se torna cada vez menos católica, a verdade descamba e, juntamente com ela, a excelência, a beleza e, é claro, a caridade. Quando o homem se esquece de Deus, só lembra-se de si mesmo. Um homem egoísta não sabe amar, portanto, não é capaz de cantar.” Continuar lendo
NÃO DIRÁS FALSO TESTEMUNHO CONTRA O TEU PRÓXIMO

Irmãs da Fraternidade São Pio X
“Mamãe, o Lucas me empurrou!” “Professor, o Vianney está me copiando!” “Mamãe, Joana pegou meu livro!” Como devemos responder a tais acusações? Devemos encorajá-las endossando-as, ou tirar partido dessas informações recém-descobertas? Será que o acusador é movido por um senso de justiça, pelo desejo de ver o triunfo de tudo o que é bom e verdadeiro? Ou será egoísmo e amor-próprio o que inspira tais comentários?
Infelizmente, a última hipótese é mais frequente. Se completássemos as acusações mencionadas, ouviríamos: “Lucas não me empurrou de propósito, mas, não estou pronto para perdoar essa leve falta de respeito involuntária.” “Vianney me copiou, e como ele não é legal, resolvi puni-lo.” “Joana pegou meu livro porque fui egoísta e não queria emprestar.”
Portanto, podemos interromper o acusador dizendo “Eu não escuto dedo-duro.” A criança entenderá que não é correto dizer tais coisas e, em seguida, não dará continuidade à acusação. No entanto, quando essas acusações seguem ocorrendo diariamente, é preciso parar e se dedicar a fazer com que a criança reflita sobre a moralidade dos seus atos.
Por exemplo, ao ouvir uma acusação, podemos responder: “Você acabou de me dizer que Cecilia trapaceou no jogo. Trapaceou mesmo? O que ela fez?” Ao fazer mais perguntas e se aprofundar um pouco mais, a mãe descobre que Cecília não tinha realmente trapaceado: “Só um pouco, mãe, porque ela soprou os dados para que desse um seis e seu cavalo pudesse avançar…” Continuar lendo
DISSOLUÇÃO SOCIAL, DISSOLUÇÃO RELIGIOSA
As atuais restrições sanitárias estão dissolvendo a sociedade e o atual governo do Papa tende a dissolver a Igreja.
Fonte: Editorial da Revista Fideliter n ° 259 – Tradução: Dominus Est
As restrições sanitárias decretadas pelos governantes impuseram à população, voluntariamente ou não, uma dissolução social. As crianças, agora obrigadas a estudar sem ir à escola e seus pais obrigados a concentrarem-se no computador, tiveram que encontrar, sob o mesmo teto, o melhor modo de viver para não interferirem uns aos outros. Todos tiveram que encontrar, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, os meios para exercerem suas ocupações completamente díspares umas das outras. O recolhimento em si mesmo tornou-se uma necessidade e o destino de todos. Eis o paradoxo: isolamento universal. Quem pode deixar de ver o terrível dilema com que somos confrontados – um totalitarismo se ergue face a uma democracia que se desintegra? Os pensadores modernos, consumidos pelo modus operandi binário favorecido pelo computador, resolvem tudo usando um algoritmo, e não saem da velha ambiguidade: a escolha entre a multidão ou a unidade. Alguns querem dar prioridade à unidade, mesmo ao custo de esmagar a multidão, enquanto outros reivindicam o contrário e permitem que a diversidade viva correndo o risco de minar a unidade. Pais de família vivenciam essa ambigüidade todos os dias! Cada um dos seus filhos requer uma atenção especial, com a qual está atento para não prejudicar a unidade de toda a sua família. Este é o princípio de todo chefe honrado: “Como são muitos os homens, cada um seguiria o seu caminho se não houvesse quem cuidasse do bem da multidão.” (Santo Tomás de Aquino) A função do poder é precisamente ordenar uma multidão, ou seja, unificá-la sem destrui-la.
O vício da modernidade consiste em ver uma contradição entre unidade e multidão. A partir daí, a primeira se opõe necessariamente à segunda e a instabilidade se torna endêmica porque essa oposição é antinatural. Em seguida, passamos de um excesso de poder para sua ausência. Manter todos em casa dá ao estado poder quase direto sobre todos. O totalitarismo unitário toma o lugar de uma democracia pluralista decadente.
Infelizmente, esse desvio revolucionário entrou na Igreja. A monarquia divina fundada por Jesus Cristo tende a se tornar uma pluralidade chamada sinodal, em detrimento do poder do Papa. Passamos da unidade para a pluralidade não apenas porque o poder do Vigário de Cristo tende a se dissolver em todos os tipos de assembleias, mas ainda mais porque a Igreja Católica está definhando através do ecumenismo em meio a um conjunto de religiões mais ou menos idólatras. Esta gangrena da Igreja de Jesus Cristo, que a priva da sua unidade fundamental, a transforma na Igreja “conciliar”. A catolicidade se tornou uma vaga universalidade sem regras, onde cada um encontra seu próprio caminho com base em seu sentimento pessoal. Eis a outra forma de isolamento universal que sub-repticiamente conduz a um poder excessivo. Continuar lendo
O NOVO LADRÃO CHINÊS

É agora, por meio de uma ditadura sanitária, que as maiores restrições e perdas de liberdade emergem.
Conheçamos, primeiramente, a tática do “ladrão chinês”. Quando quer roubar um objeto, ele o move alguns centímetros todos os dias do seu lugar. Seu dono se acostuma a ver o objeto sair gradativamente de seu campo visual, a ponto de não se lembrar mais de seu lugar de origem. O ladrão, então, só tem que roubar o objeto cobiçado e seu dono nem perceberá o seu desaparecimento.
Qualquer que seja a evolução das técnicas de roubos contemporâneos, há uma área onde o processo descrito está sendo claramente revisitado. Desde 2020, fomos roubados de muitas liberdades, em graus variados e sob restrições variáveis e cíclicas que fazem com que muitos esqueçam as liberdades de que gozavam anteriormente. Proibição de visitar os idosos, de ultrapassar um perímetro ridículo de distância, redução da liberdade de culto, impossibilidade de comprar e vender certos produtos considerados não essenciais perto de casa e até de ir à escola. Assim, cortar o cabelo, comprar roupas, oferecer flores eram considerados, nos primeiros confinamentos, atividades perigosas e propícias à contaminação do vírus, enquanto comprar e fumar cigarro, jogar a Française des Jeux [1] obviamente não envolviam nenhum perigo… para os cofres do Estado.
É agora, através de uma ditadura sanitária, que as maiores restrições e perdas de liberdade surgirão. Para agradar às empresas farmacêuticas e de informática que ditam sua lei do lucro e do controle populacional, sob a autoridade de órgãos científicos cujos conflitos de interesse são da esfera pública, trata-se de fazer com que aqueles que se recusam a se vacinar se sintam culpados e fiquem à margem do Estado, que prevê o controle de tudo e de todos. E como a adesão ao processo de vacinação encontrou forte oposição na França, procedemos em etapas. O novo “ladrão chinês” opera de forma diferente de seu ancestral: ele rouba as liberdades, mas as restitui, as rouba de novo e assim por diante. De início, acreditamos ter recuperado nossos bens, mas no alívio das poucas liberdades que foram recuperadas, esquecemos que tínhamos muito mais do que nos foi devolvido. O ladrão os guarda zelosamente e põe em prática um mecanismo que funciona muito bem Continuar lendo
NÃO COLOQUE SUAS ORAÇÕES DE FÉRIAS
Com as férias, às vezes é difícil cumprir os horários, e a vida de oração pode ser prejudicada.
Fonte: Lou Pescadou n° 201 – Tradução: Dominus Est
Quando estávamos no primeiro ano do seminário, e as férias em família se aproximavam, nossos professores nos advertiam: as férias são um bom teste para mensurar o fervor. Longe da vida comunitária, sem parte dos serviços em comum, pode ser difícil manter uma vida de oração tão fervorosa como no seminário. Esta observação também pode ser feita a vocês, queridos fiéis. Com as férias, às vezes é difícil cumprir os horários, e a vida de oração pode ser prejudicada. Assim, para ajudá-lo a não colocar a oração de férias, gostaríamos de relembrar algumas verdades sobre essa “elevação de nossa alma a Deus”.
A primeira coisa a se convencer é que a oração é necessária. Em outras palavras: não pode não ser. É a respiração da alma. Respiramos para nos mantermos vivos. Rezamos para permanecermos unidos ao Autor da Vida. Entrentanto, uma objeção pode surgir na cabeça das pessoas: mas por que rezar, falar com Deus, fazer pedidos a Ele, já que Ele conhece tudo? O catecismo do Concílio de Trento responde. Ele diz que não somos animais sem razão, e que Deus não é uma abstração, um ser imaginário. É uma Pessoa, é nosso Pai. Portanto, é normal que seus filhos conversem com Ele. É claro que Deus poderia nos atender sem nenhum pedido, sem nenhuma oração. Mas se obtivéssemos tudo sem pedir, acabaríamos nos esquecendo do Deus para o qual fomos feitos. É por isso que Nosso Senhor Jesus Cristo diz: Devemos sempre orar (Lc 18, 1). E acrescenta um argumento decisivo, o da nossa fraqueza: Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5); vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26,41).
O Papa Pio XII, em um discurso aos pregadores da Quaresma, disse em 1943: Ninguém pode, sem oração, guardar a lei divina por muito tempo e evitar uma falta grave. Porque a oração, diz o teólogo Garrigou-Lagrange, é o meio normal, universal e eficaz pelo qual Deus deseja que obtenhamos todas as graças atuais de que necessitamos. Lembremos que essas graças atuais são ajudas temporárias de Deus, para fazer o bem e evitar o mal. Continuar lendo
MÊS DE JULHO, DEDICADO AO PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE JESUS CRISTO
Foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça” (Ap 5,9).
Fonte: Fojitas de Fe, 203, Seminário Nossa Senhora Corredentora
Tradução: Dominus Est
A Igreja dedica todo o mês de julho ao amor e adoração do Preciosíssimo Sangue de nosso Salvador Jesus. É justo que nós adoremos na santa humanidade de Cristo, com um culto especial, aquelas partes que são mais significativas de algum mistério ou perfeição divina; e assim honramos:
• SEU CORAÇÃO: para prestar culto ao seu amor infinito;
• SUAS CHAGAS: para prestar culto a suas dores e sua paixão;
• SEU SANGUE: para prestar culto ao preço de nossa Redenção.
No entanto, esse culto do Sangue do Salvador assume um caráter festivo no mês de julho e na festa com a qual este mês inicia. Já na Quinta-feira Santa celebramos a instituição da Eucaristia e na Sexta-feira Santa o Sangue de Cristo derramado por nós; mas o acento da celebração centrava-se em sentimentos de dor, de compunção, de contrição. A Igreja volta depois a dar culto à Sagrada Eucaristia na festa de Corpus Christi, e também à Paixão e Sangue do Salvador, mas com maior ênfase nos sentimentos de alegria e triunfo.
Por este culto nós agradecemos a Nosso Senhor a Redenção como uma vitória já obtida, e nos exultamos em tomar parte entre o número dos redimidos, daqueles que foram lavados no Sangue do Cordeiro. E prestamos culto de latria ao Sangue do Redentor, reconhecendo especialmente uma virtude salvadora, como se vê: Continuar lendo
30/06/21 – 33 ANOS DAS SAGRAÇÕES EPISCOPAIS EM ÉCÔNE

Preferimos continuar na Tradição, esperando que essa Tradição reencontre seu lugar em Roma, esperando que ela reassuma seu lugar entre as autoridades romanas, em suas mentes” — Mons. Marcel Lefebvre
Introdução de Michael J. Matt (editor de Remnant) – Tradução Dominus Est
Em 1976, quando eu tinha dez anos, fui crismado pelo Arcebispo Marcel Lefebvre. Lembro-me de um homem bondoso e santo, de fala suave e verdadeiramente humilde. Mesmo ainda sendo crianças, meus irmãos e eu entendemos que ali estava um verdadeiro soldado de Cristo, que assumira uma posição corajosa e solitária em defesa da sagrada Tradição, em um momento em que não havia nada mais “hip” do que novidade e inovação. Nosso pai estava junto a ele, e esses homens eram “traddies” muito bem antes de “traddy” ser algo legal.
Lembrem-se que o mundo inteiro estava passando por um revolução na época — sexual, política, litúrgica, cultural — e “não havia nada mais antiquado do que o passado“. A resistência solitária dos primeiros tradicionalistas pôde, então, ser comparada a algo tão absurdo (aos olhos do mundo na época) como um homem na lama em Woodstock que insistisse para que os hippies colocassem suas roupas de volta e parassem de tomar ácido e fumar maconha. Ninguém se importava. Eram zombados, riam deles e, por fim, mandados que saíssem da Igreja.
Os tempos estavam realmente ‘mudando’, e com poucas exceções, o elemento humano da Igreja de Cristo acompanhou a loucura — com efeito, poder-se-ia dizer, liderando o caminho.
Quando nos lembramos do motivo desses homens terem resistido à loucura dos anos 60, lembremo-nos de que eles não foram motivados principalmente pela ideia de salvaguardar suas próprias circunstâncias. O Arcebispo Lefebvre, por exemplo, estava aposentado antes que o mundo descobrisse quem ele era. Ele foi persuadido a sair de sua aposentadoria por seminaristas que, de repente, viram-se cercados por lobos em pele de cordeito, nos próprios seminários. Os modernistas estavam, literalmente, em toda parte. Continuar lendo
ONDE COMEÇA A CIDADE CATÓLICA?
“Noblesse oblige”, dizemos. Mas a quê? A uma coerência entre o que dizemos e o que fazemos.
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
A Cidade Católica é uma sociedade cujas instituições não vão contra os preceitos de Deus, uma cidade cuja lei não é contra a fé. Famílias e escolas, oficinas e escritórios, hospitais e tribunais constituem essa cristandade temporal que nos prepara para obter a bem-aventurança eterna. É a cidade terrestre que nos prepara para a cidade celestial. Mas o padre Calmel nos avisa:
Só podemos falar proveitosamente do Cristianismo para aqueles que estão dispostos a admitir que as atuais instituições, pelo menos alguma delas, representam uma antessala mais ou menos climatizada do Inferno, porque são instituições contrárias à lei natural. Legitimam, autorizam, encobrem com sua autoridade atos e atitudes que são uma ofensa ao Criador e Redentor da natureza humana. Considerando que uma cidade que merece o nome de cristã, uma cristandade, deve estar em conformidade com a lei natural, digna de Deus e digna do homem, inspirada pelos ensinamentos da Igreja, e permitindo que o homem conquiste o céu.
(Escola Cristã Renovada, cap. XXVII, “A cristandade deve continuar”, Téqui, pág.166)
É por isso que a Cidade Católica começa dentro nós: com a consciência lúcida desta “antessala mais ou menos climatizada do Inferno”, acompanhada de resoluções práticas para “ganhar o Paraíso”. A luta pelas instituições cristãs começa em cada um de nós, com humildade, mas com eficácia.
É sobre isso que cantamos:
Queremos Deus na família,
Na alma dos nossos queridos filhos …
Queremos Deus! Sua santa imagem deve presidir aos julgamentos;
Queremo-lo no matrimônio
Como à beira de nossa morte …
Queremos Deus! nossa pátria
Deve ser colocado em primeiro lugar…
A questão é saber se este é apenas um hino, uma canção piedosa cujas palavras desaparecem ou são um roteiro cujos passos são seguidos fielmente, dia após dia.
“Noblesse oblige”, dizemos. Mas a quê? A uma coerência entre o que dizemos e o que fazemos. É esta coerência que transforma as nossas provações diárias em provas de amor a Deus e às almas.
Pe. Alain Lorans, FSSPX
Famille d’abord, Carta do Movimento da Família Católica n° 45 – junho de 2021
DIVAGAÇÕES A RESPEITO DOS JOVENS

Modéstia à parte, tenho sido ultimamente entrevistado, mas permanece inevitavelmente a mesma indagação fundamental: o que penso eu da juventude. Ora, devo confessar que não penso absolutamente nada da juventude. Por mais que me esforce e que esmiúce a pergunta, por mais que analise os conceitos envolvidos no inquérito, só consigo pensar que a juventude é a juventude. Que outro juízo esperam os colegas de mim? Não consigo, sinceramente, descobrir nenhum predicado que convenha a todos os jovens, a não ser a própria juventude. O jovem é jovem, eis aí o pensamento profundo atual, avançado, audacioso, que ofereço a todos os jornais e revistas. E desde já lanço o repto: a quem me provar que o jovem não é jovem entregarei minha casa e meus livros.
Outro dia, entretanto, ouvi alguém dizer, aliás pela milésima vez, que o “jovem é autêntico”, e que o jovem, pelo fato de ser jovem, sofre a pressão ou a colisão das inautenticidades dos velhos. O que quererá dizer isto? Receio que o pressuposto de tal afirmação, se algum existe, é o de só existir, em toda a vida humana, uma estreita faixa etária, como diria o Dr. Alceu Amoroso Lima, em que o mísero bípede implume se encontra consigo mesmo. Eu poderia invocar a longa experiência de vida e contestar o fenômeno. Sim, posso assegurar que já encontrei muitos jovens com todas as características do canalhismo; e até poderia acrescentar, com robusta convicção, que essa peculiaridade da alma humana está equitativamente distribuída por todas as idades.
Lembro-me por exemplo dos moços da extinta UNE, ou entidade máxima estudantil: quase todos os dirigentes que conheci eram canalhas e demonstraram uma virtuosidade capaz de causar inveja a um velho crápula aposentado. Por dois desses fui enrolado apesar de toda a experiência da vida de que me gabei pouco atrás. Mas talvez esteja enganado: os sagazes observadores da eclesialização do mundo ou da secularização da Igreja, e sobretudo os sociólogos dessa índole dirão que observei mal e que confundi canalhismo com atitudes de protesto. Os jovens que praticam atos de canalhice, segundo os padrões tradicionais, não são canalhas porque são jovens e não são canalhas porque estão apenas replicando à deixa da falida geração que só legou taras e misérias. Sim. Um dos postulados que parece presente na base de tudo o que se diz hoje dos jovens é o da total falência do mundo anterior. E aí temos um estranho conflito e até se duvidarem uma estranha revolta: a de um ente de razão contra outro ente de razão, a de um ser abstrato contra outro ser abstrato. Continuar lendo






